O sono é como um rio

 

Aproximação preliminar da lírica de Xavier Rodríguez Baixeras

 

Uma das vozes mais originais e penetrantes da moderna poesia em língua  galega, Xavier Rodríguez Baixeras é um poeta como poucos. Descendente de uma nobre linhagem (trovadores galego-portugueses), Baixeras não se limita ao prazer imagético e fluídico da palavra. A música interna, rítmica, nascida de uma reminiscência universal, é o elemento que em grande parte torna seus versos tão primorosos. Daí a proximidade do autor com o galego, esta língua tão bela. Conhecedor de suas sutilezas, Baixeras constrói uma realidade particular onde predomina a saudade, o gosto vago, mas vigoroso, da lembrança.

 

         O ritmo do verso perfaz-se em intuições, originárias de mundo sempre prenhe de sol. Veja-se como o encadeamento das flutuações rítmicas é eficaz na estrofe abaixo selecionada:

 

Como un rebumbio a casa desconforta!

Atoutiña ata a fin do corredor,

onde se acende o cais..., sente o quentor,

a febre desta porta,

na que, ao pechar, alguén deixou olora cuncha e a cetín...­

A tebra, absorta,

procura as voces, o remoto albor.

A casa segue morta.

 

Notemos as rimas que fazem com que o poema deslize como o pensamento diletante: desconforta/porta/absorta/morta e corredor/quentor/olor/albor. A dimensão táctil da palavra subsume-se ao esforço de encontrar a transfiguração verbal. Maupassant dizia que para expressar uma idéia só existe uma única palavra. Cabe ao artista encontrá-la. Baixeras está bastante cônscio desta realidade, em versos como:

 

Nada regresa daquel perfume de pinturas vaporosas

proéndonos os ollos

no cuarto dos avós. Unha alba sucia

abría, dolorida, as nosas sombras

nas pálpebras inchadas, envesgadas de sono.

 

Carlos Drummond de Andrade certa vez disse: minha matéria é o nada. Baixeras também trabalha neste limite, onde toda ação ganha o nome de pensamento (Shakespeare). Muito lírico, algumas vezes concentrado como um remédio potente, d’outras vezes (v.g. “A mudanza”) imenso como o mar que banha seus poemas, Baixeiras ousa redescobrir metáforas em uma língua minoritária, cuja potencialidade poética, ainda hoje, é abissal.

 

Um certo bucolismo resignado informa suas criações, mas não é o desânimo fácil que a maioria dos viventes carrega. Na verdade, permanece o grande mistério da existência, a aporia poética insolúvel. Vejo Baixeras escrevendo, sozinho, o crepúsculo já quase terminado. O poeta tem à sua frente o mar e parece perguntar, como Beethoven, no início da partitura da Missa Solemnis: “Tem que ser assim?”

 

Eu xa non vivirei nesta traseira,

rexión onde unhas aves alunizan insomnes

e un eco me repite: cando unhas maos de carne...

Eu estarei na Beira, onda os que agardan

por un rego de asfalto,

erguendo o po da estrada cos seus ollos vacíos.

 

E a resposta vem ao final do manuscrito, tácita, terrível, inarredável, escrita pela própria mão do músico surdo: “Tem que ser assim”. Uma grande saudade do futuro, do infinito alento, a grande terra espanhola encravada nessa região de inumeráveis demônios e amores interrompidos com violência. Baixeras não nos deixa esquecer o que é o verdadeiro poder:

 

Estamos aquí sós, no corazón do frío,

tentamos os aromas que a neve nos sepulta,

dos nosos corpos nus despréndense regatos

de sol e bolboretas que se abrasan, nocturnas,

e ventos que nos levan por un mesmo camiño.

 

E também:

 

Disolvo viaxes sen perfil, estancias sen olor, plataformas onde esperei con fe un tren aceso, devolto pola noite escumando, a dureza da auga, paxaros como cinza, un rostro avergoñado de vivir.

 

Com extremo rigor, o poeta nota que Os días pesan pero o mar deslumbra.  Eterna oposição entre o nascido e o que ainda pode vir a ser. Tensão que se espalha na pele do leitor atento, fazendo brotar flores amarelas, aquecidas por uma tarde inclemente. Sutil música de violoncelo-solo perpassa as evoluções de uma lírica que recusa de forma veemente o lugar comum do fácil obscurantismo e do construtivismo estéril. Para Baixeras, a poesia não é um jogo, mas sim um alimento que se come com as mãos:

 

Abrirei o portón

Abrirei o portón da miña casa
para que entren esmoleiros,
leiteiras,
vendedores de mel.

E, como nun lagar, ese perfume
hei espremer, bagoando.

E pecharei.

              A poesia de Baixeras não nos traz abrasamento sôfrego. Acredito que o autor comunga com outra tradição: a superior fineza de espírito da écloga IV de Nemesiano, pois “o calor convida à sombra” (Vocat aestus in umbram”). Com grande força, Baixeras dignifica a poesia de Galícia. E o mais importante: ele o faz em galego.  

Andityas Soares de Moura

Dezembro de 2001