LA POESÍA DE JAVIER LASHERAS

 

 

 

             Li os poemas de Javier Lasheras e me surpreendi. Há uma força vital que se alastra nos versos, com raiva, dor e cólera, para usar o vocabulário rosaliano. Um erotismo curtido, de longo tempo, de várias imagens põe a carne em evidência. O poeta participa de um mundo noir, onde um único corpo responde à madrugada. Baudelaire, está exilado. Tudo que se vê são as ruas, terrivelmte vazias. E se não há motivo para escrever, devemos entender a vida do poeta como uma luta contra a mesmice, contra a rendição completa e absoluta:

 

Y para no ensuciar más las palabras

hienas de asco y odio,

de fétido olor a muerte

también el fuego.

 

Lasheras é espasmódico, se desenrola como cobra ferida em versos extensos, mas que não perdem nem por um momento a tensão lírica - lágrimas nos olhos -, se o verso é longo, é porque há muito o que dizer - não as deixe rolar: ars longa, vita brevis. E a eterna imagem da mulher: anjo corruptor, descanso do fogo, fêmea primordial, fatal. É Lasheras quem fala:

 

Alégrate mujer, alégrate porque eres esencial

como el aire o el agua o el fuego y das vida

y dicha allá donde anida el cieno y la desgracia.

 

Sem meias palavras e compromissos, assim é a verdadeira poesia. Um corte na garganta: por isso as palavras caem e se acumulam no papel, com um caos adorável. Misturadas ao sangue, elas inundam a existência. Não, não se pode pará-las. O poeta perdeu a voz. É a garganta cortada que fala, a palavra por si só. E ela traz em si tempestade:

 

Alégrate mujer infinita, alégrate de la tempestad

y de todos y de cada uno de estos momentos

llenos de yel, terror y nada.

 

E esse reinício sempre desafiante? Como não lamber os seios da fêmea ? - único porto para a nau que não quer aportar - violência, violência até no amor. Como as bruxas sensuais de Cortázar, que beijam com pregos na boca, que mordem, que morrem na fogueira da traição final. Mesmo o carinho é sangrado, a garganta cortada nos alimenta. Somos todos filhos do sangue:

 

Hubo noches que fuiste mi candil

y como un animal me acercaba a tu cuerpo

husmeando tu dulce calor de sueño.

 

E mais à frente, a maldição shamânica, portal  que talvez nos leve ao coração das trevas:

 

Que por los siglos de los siglos

así te embadurnen con esperma

y maldiciones.

 

           Uma poesia de força inesgotável, que parece não acabar e que se renova a cada página. Esse magistral "Tú también, perra mía?" que começa com questão essencial e relata nossas misérias, covardias, pequenas tristezas só confessáveis à noite, em voz baixa:

 

Y qué hacer con quienes como tertulianos del amor

defecan sentencias, dan doctrina, sientan cátedra

y se vanaglorian de su profundo conocimiento.

 

E há também chuva leve:

 

DESCENDER A TU VIENTRE

después del temblor

del agua y del esperma

prófugo del invierno.

 

Por fim, a poesia de Lasheras assume, no pequeno mapa de viagens chamado EQUILÍBRIOS, o tom da despedida do corpo, tão conhecido, tão imensurável. Os quase-haikais cheiram como flor do oriente, mas o sol que brilha é sempre o agoureiro sol espanhol, de verbos fortes e palavras pesadas, de sonho e treva, de fumo e fumaça, de alegria e esquecimento.

 

                                    Andityas Soares de Moura (Barbacena, 13 de marzo de 2002)