SEIS FRAGMENTOS LÍRICOS DE ANACREONTE DE TEOS

 

Traduções e nota explicativa de Andityas Soares de Moura  

 

        Anacreonte, poeta grego de origem jônica, nasceu no sexto século antes de Cristo, em Teos, na Ásia Menor. As datas exatas de seu nascimento e morte são duvidosas, sendo que os estudiosos costumam localizá-las entre 570 a. C. e 488 a. C. Durante grande parte de sua vida trabalhou na corte de Polícrates, tirano de Samos.  Após a morte de seu protetor, instalou-se em Atenas. Morreu, segundo a tradição, aos 85 anos de idade, engasgado por um cacho de uvas.

          Escreveu diversos livros de poemas – odes, epigramas, canções, elegias, etc. – dos quais só nos restam fragmentos. É importante frisar que as famosas odes que se atribuíam ao poeta até há pouco tempo são, na realidade, composições de outros autores gregos que escreveram à maneira do mestre de Teos. Daí a afirmação de que não existem "Odes de Anacreonte", mas sim "Odes Anacreônticas".

          Quase todos os fragmentos que chegaram até nós falam sobre o vinho (Baco) e o amor (Eros e Afrodite). Esses pequenos momentos líricos são tão intensos que levaram o severo Cícero a elogiá-los, sustentado que toda a poesia de Anacreonte é dedicada ao amor: nam Anacreontis quidem tota poesis est amatoria. Mas a glorificação erótica – tanto em sua versão homossexual quanto heterossexual – que o poeta grego celebra não deve ser confundida com superficialismo fácil. O próprio Anacreonte reconhece que:  

Os dados de Eros são

a loucura e o tumulto.

   

       Assim, em muitos momentos os seus versos apresentam densidades que somente podem ser assimiladas após profundas reflexões. Também é notável sua capacidade de criar enunciados maliciosamente dúbios. Talvez por tais razões Teócrito afirme que o poeta jônico foi o maior dos antigos compositores gregos.

        Na presente tradução buscamos, na medida do possível, trazer um Anacreonte mais natural para o leitor brasileiro. Tentamos evitar construções por demais complexas que pudessem turvar a beleza mediterrânea destes versos tão cheios de odores, cores e sons particulares. Em alguns momentos foi inevitável torcer e retorcer nossa gramática, inclusive para reproduzir certas ambigüidades típicas dos textos. Esperamos que o resultado final tenha sido satisfatório. Por fim, anote-se que as presentes traduções tiveram por base diversas outras, italianas e francesas, feitas diretamente dos originais gregos. Cabe destacar a excelente versão do professor italiano Angelo Manitta, publicada na revista de literatura e arte Il Convivio n° 10 (Castiglione di Sicília, CT – Italia, Luglio-Settembre 2002, p. 43).

 

Fragmento n° 2   

 

Ó divino – com quem, enquanto percorre

os altos cimos dos montes, folgam

as ninfas dos olhos azuis,

a purpúrea Afrodite

e o indomável Eros –

rogo-te que benévolo

venhas para escutar

minha grata prece.

Infunde sábio conselho

em Cleóbulo: que ele aceite,

ó Dionísio, o meu amor.

 

 

Fragmento n° 4

 

Rapaz de olhar virgíneo,

desejo-te, mas tu m’evitas,

não sabendo que de minha

alma governas as rédeas.

 

 

 

Fragmento n° 5

 

Para Safo

 

Novamente c’uma toga púrpura

provocando-me, Eros dos cabelos louros

convida-me a brincar junto

d'uma moça de sandálias jaspeadas.

Mas ela – que provém da florida

Lesbos – despreza minha cabeleira

já branca, enquanto, de boca aberta,

fica maravilhada diante d'outra.

 

 

Fragmento n° 27

 

Traz-me água, traz-me vinho, ó rapaz, traz-me coroas

entrelaçadas de flores pois quero lutar com Eros.

 

 Nota: estes dois versos foram encontrados em um mosaico do Século II d. C. no qual há uma figura que representa Anacreonte.

 

Fragmento n° 43

 

Eia rapaz, traz-me o cálice

para qu'eu beba d’um alento,

mescla na taça dez partes de água

e cinco de vinho, pois quero

de novo embebedar-me

sem tantas histórias.

 

Eia, não façamos como

os Cítas que bebem do vinho

entre brigas e gritarias,

mas calmos brindemos entoando

belos cantos em louvor aos deuses.

 

 

Fragmento n° 44

 

Cinzentas já estão minhas

têmporas e branca a cabeça,

já está perdida

a amável juventude

e os dentes têm cáries.

Da doce vida não me resta muito tempo,

por isso me lamento,

temendo o Tártaro horrendo.

Com efeito, é terrível o abismo do Hades

e penoso o caminho dos infernos.

E é certo o dito:

o que caiu não mais se levanta.

 

Nota: a autoria deste fragmento é incerta, já que pertence às "Odes Anacreônticas". 

 

 

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