ANDITYAS SOARES DE MOURA

 

 

LENTUS IN UMBRA

 

 

 

 

 

 

BARBACENA

MMI

                  

 

 

 

Esta pequenina collage de momentos na realidade não me pertence. Só existem, foram escritas e publicadas unicamente graças à insistência e à geniosidade daquela mulher que anseio ter ao meu lado.

 

Portanto, contente-se com estas poesias, que nada são além de uma opaca sombra de tua luz, minha Monique.  

 

 

 

 

 

 

                          INTRODUÇÃO  

 

Meu querido Andityas,

Tua poesia passeia pela história do mundo como um

                                  [ andarilho sensível e hermético.

Ela é como teu nome, estrela.

Paira sobre madrugadas e crepúsculos exóticos.

Levemente telúrica, vai exalando perfumes enquanto

                         [ estrutura imagens belíssimas de um

jardim indecifrável e único.

O cheiro da terra, fragrância do jasmim,

  [transporta-nos a um tempo onde a poesia era tudo.

Versos enxutos, de roupagens eminentemente

         [ atualíssimas, surpreendentemente belos, nos

convidam ao amor.

Outras vezes à solidão.

Enfim, nos incita a viver, extrair o sumo da alma.

Só nos resta quedarmos “ tranqüilos à sombra ” e

         [ curtirmos com deleite as belas imagens que

nos presenteia.

“ Omnia uincit Amor : et nos cedamus Amori. ”

Meu querido Andityas, graças aos deuses és poeta.

 

Luis Henrique Trindade
(Poeta, Psicólogo, ocupante da cadeira nº 25 
da Academia Barbacenense de Letras)

 

 

 

 

 

 

                         ÍNDICE

 

 

Flor suficiente

            I – Monodrama

            II – Madri

            III – Pax Romana

            IV – Embolada

 No equinócio quando os montes

 Sistemas: organdi

 Floritura

            I – Plenilúnio

            II – Arancia

 A cabeleira

 Spem in alium

 Anoitece no atol

 Romanceiro

            I – Provençal

            II – Epigrammata

 Chanson

 Traum

 Sol pequenininho :

 Néctar

 Tomás de Aquino

 Contrapunctus

            I – Alfazema

            II – Cânhamo

            III – Digo-te, por que encarnar as estrelas?

            IV – Oliveira

            V – Modinha

 Manifesto : ilusionista

 Cântico (ao modo lídico)

 Minha monção

O valor do abismo

            I – Âmago

            II – Sobre a terra

 Mulier

 Esta perfumaria

 Lo clavicembalo rosso

            I – Arrossamento – modus rectus

            II – Fragranza

            III – Bolero infante –modus inversus página-

 Momento rude

 O muro caiado

 Favola

 

 

 

 

 

 

«Omnia uincit Amor: et nos cedamus Amori.
Haec sat erit, diuae, uestrum cecinisse poetam,
dum sedet et gracili fiscellam texit hibisco,
Pierides: uos haec facietis maxima Gallo,
Gallo, cuius amor tantum mihi crescit in horas,
quantum uere nouo uiridis se subicit alnus.
Surgamus; solet esse grauis cantantinbus umbra,
iuniperi grauis umbra; nocent et frugibus umbrae.
Ite domum saturae, uenit Hesperus, ite, capellae.»
 

 

                                                                Publius Vergilius Maro,

                                  As Bucólicas, écloga X – 69/77  

 

 

 

 

 

           FLOR SUFICIENTE

 

I – MONODRAMA

 

Respeitar

o soar agudo

da hora

 

exercícios anfíbios

 

o chão sujo

de branco convida

o eremita

a silenciosos

            desesperos

 

Não chores pelas flores

o perfume

será teu sustento

 

Até mesmo teu corpo

conversaria

com a luz

 

o estudo me fez espirituoso

 

dividiremos as sombras

 

 


 

II – MADRI

 

       O campo todo escuro

       grama verde

              sussurra delicadezas

 

Estás pisando o solo de sangue

 

       Veias feéricas

       saltitantes crianças maltrapilhas

       Ai ! só vejo a torre da igreja

 

Estás pisando o solo de sangue

 

       Um encantamento antigo

       mãos e pedra

       ainda agora havia um sol vermelho !

 

Estás pisando o solo de sangue

 

       Para que perambular pela vila ?

       um copo de vinho branco

       Para que se matar no velho porto ?

 

Estás pisando o solo de sangue.

 


 

III – PAX ROMANA

 

Tu, deitada no templo, decifrando as

escuras pilastras da casa, ouve

minhas palavras metálicas. Ainda

hoje saborearei teu corpo, quer

m’ofereças, quer não. Jasmins

tenho em minha carroça para

impressionar teus gostos arrojados,

Serei um afável salteador, roubando-te

as mais pecaminosas

excitações cerebrais. Ainda hoje tu

te deitarás comigo no prado.

Afastemo-nos da cidade. Então

apresentar-te-ei vários elixires, temperos

raríssimos.

 

Os milênios serão nossos confessores.

 


 

 

IV – EMBOLADA

 

bolhas no riacho

vento em noite fria

névoa baixa

 

sono em pupilas pequenas

por que recusar o vinho?

tão árdua é a vindima

 

estreito tapete de folhas

a inocência do musgo

 

enormes massas de ar amarelo

e morno entorpecem a saúde,

coisas rápidas entre os galhos

 

Oh verdes cepas ! Frutos e legumes bondosos,

grosseiros, gigantescos vegetais inocentes

 

Os filhotes de burro

dormem ao lado da

fogueira

 

finalmente os primeiros

raios do crepúsculo

 

 

 

 

   NO EQUINÓCIO QUANDO OS MONTES

 

anunciam o ardor leve

e calmo

dum Passo distante

 

Faca

Prata de orvalho

dentro do matagal

cavalos beijam-se

 

o negro, então

torna tudo muito

quente e

oleoso  

 

 

 

 

    SISTEMAS : ORGANDI

 

Para onde ó verbo,

desterrado canoeiro, teu

cajado fez-se apenas luz,

te repôs à umidade

das línguas ?

 

Abrevio teus seios

no descuido de um

                        ponto

                        vermelho

 

Borboletear por cada

escuridão :

 

folhas tremem

suplícios

finos

fios

de algodão

 

ovos gigantescos

explodem entre as

      nuvens

 

mar se cala

 

súbito

   

 

 

 

     FLORITURA

 

I – PLENILÚNIO

 

É preciso

que

existam

alfinetes

            e

               seixos

 

opressões longínquas

 

o olho do pássaro

torna-se

amêndoa

             o menino

                      sorri

                             na claridade

triste e comovente                  da estação

 

A sombra de todos os

mundos contrai-se,

deliciosa e vazia,

no abatjour

 

ombros são como

dois pães

abandonados

sob a toalha vermelha

 

Rosto ameno

         quase de uma beleza tácita

                                – aquela que simplesmente

                                                     exige  


 

II – ARANCIA

 

As luzes

se apagam

                lentas e lúbricas

                como se olhos

               fossem de improváveis

                                            feras

 

Para onde agora, que

o caminho é sem fim ?

 

Gosto de tâmaras azuis

 

Para onde agora, que

o caminho é sem fim ?

 

       lençóis conservam ainda a

       loquacidade de conversas cansadas

       e alegres, oh majestades inflexíveis !

 

Para onde agora, que

o caminho é sem fim ?

 

terras já tristes e cáusticas convidam

teus alumbramentos a folgar

 

Para onde agora, que

o

caminho é sem fim ?

   

 

 

     A CABELEIRA

 

Um gato sob a coxa 

                       esquerda

as mãos preocupadas em ora

abrir e fechar um volume de

curiosidades banais e ora em

deixar a seda do pesado vestido

mais próxima da pele

 

(Flor

de aspereza macia

 

as pétalas são como

virilhas femininas)

 

estremecimentos na cintura sentem

o peso do tecido afrouxado.

beijam-se,

mas só por necessidade

 

                                      

 

 

     SPEM IN ALIUM

 

Guardar a obra

         em pequeninos

                espaços

 

respirar o alho, o sal

              ainda tocar

               um sino

              de rúcula e carne

 

hoje as crianças não têm aula

não precisam acordar

na madrugada gelada

 

como me doía o cabo da

escova de dentes mal

segurada entre dedos

                 que não podiam largá-la !

 

Ah delírios !

     “ Tu serás hiena etc ”

 

Sempre um manifesto

a cada minuto

         esquecido após

 

              

         hoje, de manhã,

         nas escadas do pátio.

         ao subir vi

              que tudo voltava

         para o local cotidiano

        na imensa engrenagem dos dias

qual ciência poderia afirmar-se

         se assim não fosse ?

 

       Ter as raças no profundo

         da bolsa.

 

Amedrontarei todos os bebês

serei incrível !

         por terras de moluscos

          espalharei meu evangelho

                                    de muitas

                                         muitas

                                      palavras

 

terei tuas unhas

conservadas, talvez,

      em mármore ?

 

Agora já são dois

                grandiosos retângulos negros.

                englobam o céu

 

                                    dormir, senhora, nas beiras

                                    do mato e, folgazões,

                                    cuspir na torpeza do lenho

 

Punhal de aço, de ar

               corta a tarde

                    ainda há segundos

               atrás

                    dormias

                            não sem preocupações

 

sentir

a ponta de dedos curtos e

                            frágeis

            um grande terror

             nos impressiona

terei realmente a despido ?  

   

 

   

e mesmo deste modo o velho caminha descalço pela areia desonesta que regularmente cobre-se de mar. seus pés parecem acostumados com todos aqueles pequenos pedaços de crosta terrestre. há quase uma satisfação em desviar-se das conchinhas que por uma razão ou outra decidimos poupar do indefinível sepulcro arenoso. seria incômodo notar que já não existem risos ou pegadas de crianças neste horizonte vermelho. portanto, não notamos. tudo que consegue transparecer – além daquele insofismável gaguejar de vento – é a bola melindrosa e nem um pouco serena, que estrategicamente colocada  (de forma perpendicular) no fim do oceano – certo é que o oceano, apesar de vasto vastíssimo tem um ponto final – cisma em dirigir os raios de um contraforte cruel, aquoso, invisível e até mesmo amarelo para os últimos fios de cabelo que restam ao ancião. que caminha chega à orla chega e sente peixes imaginários beliscarem os dedos de número 1, 3, 7 e 12 de seus pés : exprimir a riqueza da espuma. eis o que deveria conter aquela profunda meditação senil, mas a única coisa que consegue lembrar, enquanto entra filialmente no mar que vê pela primeira vez, são as deliciosas nádegas de sua amiga tocá-las beijá-las desenhar nelas antigas figuras primitivas. ele entra completo no mar que não é nem bravio nem amigo. É água. O ancião não é nem velho nem triste nem esperto quando sente o sal que alimentou ictiossauros preencher lentamente o espaço que sempre existiu entre suas unhas e a carne, (emocionada, por fim,) que há por debaixo delas. É homem.

 

       ANOITECE NO ATOL  

 

 

 

 

       ROMANCEIRO

 

I – PROVENÇAL

 

Ah, um esquecimento !

A máquina ainda é humana

 

Sucumbe, coração

 

Não deixeis o melro

                      livre

agulhas entre as pernas

o silêncio de um

       único peixe

                na lagoa

 

Por que trilhas ?

Os simplórios aldeões

constroem seus próprios

bustos com rabanetes

                  cenouras

                e melancias

 

Meu sono às 06:30 da manhã

recusa-se a acreditar em um mundo

fraterno

peço desculpas aos homicidas

planejo loucas escapadas carregando

sangue nos bolsos

 

Sucumbe, coração

 

Os cavalos correm

na noite sem fim

areia e mata

os cascos são como pedras de gelo

 

límpida sensação de desmaio

                                coletivo

    mãos imaginárias

    lavam a consciência do dia

 

e mais

         rápido

                  padece,

                              coração  


 

II – EPIGRAMMATA

                                      

                                                             os

Sempre pareceu-me evidente                         cavalos         

que minha casa só existiria                             correm        

à noite. Mesmo assim, todas

as alcovas se abriam para

uma olhadela fatal. O porquê

das serpentes. Poeira e água

misturavam-se naquele dia,                                  na

enquanto a razão cedia                                        noite       

alegremente à insofismável                                 sem     

sensualidade, ao desejo                                        fim     

do coito superior ...

 

ainda assim,                                                     areia e     

         persiste a                                                  mata         

         idéia das espigas douradas

                                                        os cascos         

dentro da ventania fria                                     são      

( eia ! esta rutilância, este constante              como      

dar de ombros – esta aventura ! )                   pedras       

                                                            de

                                                             gelo     

 

 

 

     CHANSON

 

Tudo que restou

          do

              silêncio

 

                               grande

         foi uma

          açucena

          plantada nestes pés

 

          lírio ou jasmim

          a espera do

          pólen

          foi proibida

          pelos tiranos

 

          abracei o

          abismo

          o lago nem sequer

          foi citado em crônicas ...

 

Por onde andas, saberás  

 

 

 

    TRAUM

 

Pêssegos

vermelhos nascendo

raios

     de surda experiência

ocaso

     finas rasuras

     em tua

               epiderme

 

a hora escoa

           barcos preparados

           para partir

 

De áreas distantes

vêm suspiros

        fôlegos de ar 

que não

      podem subsistir

 

Em um instante : o bejoin

 

                a seda, a púrpura

       as abelhas vindo

       ameaçar a

                    solidão

 

Em um instante : perder as nuvens  

 

 

 

     SOL PEQUENININHO :

 

Ontem,

florações do outono

lanças verdes premiando as terras baixas

 

preguiça de marrecos,

descansam os calendários dos homens

dentro de grandes

                profundas

                cavernas

                silenciosas

 

os meninos verão filmes pornográficos

hoje de madrugada

já que todos

           dormem

 

           dormem

 

       

  

 

     NÉCTAR

 

             Letárgico,

            sustento a iguaria doce

           em torno dos joelhos :

                                  assustados ?         desencarnados ?

 

                   Sur les champs

                    ainda agora, sem qualquer

                   inocência ou pudor

                                                     as águas celestiais !

                                                      bem me lembro

                                                      que corriam negras

                                                      das bocas de anjos

                       ora, por este apelo

                       eu esquecerei as dívidas

    as                  que o sangue nos impõe

                       a cada rebelião

  águas             

                          Sueño, sueño verdadeiro como

celestiais           comer pedaços de frutas

                      misturadas

      !                                : e saber exatamente

                                       qual é a

                 manga                       abdomen

                       qual é a cereja                       lábios

                       e qual

                                  é o mamão

nada digo do                :

morango                      olhos fechados

 

 

                                

   TOMÁS DE AQUINO

      toda prece

      verdadeira termina

      em um gozo inacessível

      de

      magnólias

 

torturar os gostos

        séculos a fio                          até que saibas

                                                      lamber com

                                                      a língua

 

           laranjas nos laranjais

                                               : o prazer

                                               do dia

                                               que se acaba

   

     CONTRAPUNCTUS

 

I – ALFAZEMA

 

Sensíveis hálitos

de cigarrilhas

empoeiradas

 

copos vazios

brilhando

 

                 tuas ansiedades

                 juntas, dentro

                 de conservas

                 de amora

 

Ainda uma imagem

a lavar o matiz

   fundo da tarde

              o jovem semeeiro

caminha entre os

túmulos

 

      a plantação de tomates

      se contorce de frio  


 

II – CÂNHAMO

 

Por este pântano, por estas sendas

o brutal amanhecer

de guelras bem abertas

                          híbridas

 

                             dentro de meu

                             sapato, a fotografia

                             dos cabelos dela,

                             fio a fio

 

Ainda aguardaremos o dia quente :

 

deito ao lado de teus

                         sonhos,

      que despertaram

      com o barulho

      das patas

            de um doce pã  

 


 

III – DIGO-TE, POR QUE ENCARNAR AS

         ESTRELAS ?

 

Digo-te, por que encarnar as estrelas ?

Não basta o imoderado remorso

das primeiras horas do amanhecer ?

     valeria o céu e o mar inteiro

     o gosto sórdido de uma

     lembrança afogada

                como criança monstruosa ?

 

conchas espessas

crescem ao redor

de teus seios

 

            espíritos em cada

            guarda-chuva

            impedem a

            tão aguardada

            apalpadela

                     na nuca

 

ainda assim,

insisto :

      sem roupas íntimas

      por baixo do

      vestido novo

   

 


 

IV – OLIVEIRA

 

a entrega amena

do último trigo deste

                           verão

 

soluça com gosto, senhorinha !

 

o cão peludo

dormiu entre a fogueira dos

ciganos e a menina louca

 

soluça com gosto, senhorinha !

 

Vendem ameixas amarelas

e suculentas no mercado

o barbeiro diz que são

envenenadas

 

soluça com gosto, senhorinha !

 


 

V – MODINHA

 

aguardo o trem

chapéu na mão

sapato polido tal qual ferradura

terno alinhado, polainas

e um girassol

na lapela

 

tua memória

escorre

nos banhos quentes

                            de Tebas

 

cada gota

  é uma

sede nova

 

                     pausa

pernas                            os relógios

nem                                nadam em

longas                            nossos pulsos,

nem                                e desaparecem

curtas                             quando realmente

terminam                       desejamos

em

finos

pés

de

cristal            de cristal            cristal

   

 

     MANIFESTO : ILUSIONISTA

 

ainda tenho a primeira

mordida guardada em uma

caixinha de veludo

                             de marfim, se

                                 quiseres

 

o fumo seco

resvala nas

escuridões

                  da ponte

São tuas companheiras

       em jogos contraditórios.

                               assim como crocodilos,

                               expõem-se ao calor

                               matinal;

                               e se ninguém as reconhece,

                               atormentam com pesadelos

                               o sono dos bebês de colo

   

 

     CÂNTICO ( AO MODO LÍDICO )

 

Amiga, amiga bela

tu não possuis mácula

 

teus olhos são como

a oliva fresca colhida na madrugada

teus pés são mais belos

que pequenos filhotes de leão

deixados para brilharem ao sol

 

Tu és bela, amiga minha

tua voz escapa da boca e

convoca os Reis dos quatro

impérios a venerar a escritura

teus tornozelos lembram as

serpentes negras do Nilo que

se beijam ao morrer em danças

frenéticas

teu seio é pão maturado

nas ricas fornalhas do Cairo e

de Alexandria, onde as concubinas são de vidro

 

tua mão é bendita e

tudo que dela tira o

sustento será adorado pelo povo no Templo

 

teu amante é garboso e valoroso

tua mãe abençoada está

teu pai não se queixa da terra

teus servos são zelosos e modestos

tuas cabras e camelos, saudáveis

assim como teu jardim é o mais

rico em diversidades de verduras e

dulçor de frutas

tuas servas, boas cozinheiras

e teu palácio é um ninho de mergulhões vermelhos

 

                       

 

 

 

     MINHA MONÇÃO

 

    Águas que

    correm

              para onde os tigres

              estão

 

bem longe,                          aqui,

a chuva                               bolhas

na noite                               brincam com as algas

 

    as pequeninas filhas

    seguem as mulheres na busca

    incestuosa de

                        cometas

        

 inatingíveis.

                                               

                                            cães e gatos

                                            nos lembram

                   que a ternura é pouco mais

                    que um beijo antes

                          de dormir

 

 

 

      VALOR DO ABISMO

 

I – ÂMAGO

 

Dama,

pelo fruto não se constroem

cidadelas, não se formam

rios impunes de cólera,

por cavalgar não se

nivelam estrelas

 

silvestres silvos

locus amoenus

entre pernas corredoras

 

ah ! o estigma do vinho

ah ! o esquecimento

no jardim !

   

 


II – SOBRE A TERRA

 

Sobre a terra não se

escava mais, não se pode

falar há não ser com sobressaltos

incríveis

 

Há ainda alguns

que choram    ó desmedidos,

                         teus corações são como

                         bolas de odores tácitos

 

eu, por mim, presto

homenagem a todos

 

  “todas as horas mineiras

      são boas e simples”

   

 

     MULIER   

Que orgulhosa ramagem é esta que tapa teu belo sexo ?

Acaso podes esconder aquilo que não te foi dado no

início ? Definhas, respiras e expiras pelo único

fogo    lagarto fiel e onírico que jamais esfria 

suficiente para arrancar-te suores. Ainda

assim, vejo-te em diferentes regiões e temperamentos.

O arroseado transtorno das épocas vaporosas, o peito

pende resoluto. Que deleites extraordinários poderiam

cegar-te as inflexões provinciais, o jeito econômico

de dizer adeus ? Portanto, o sempre renovado gotejar

de delícias, os vícios que, não estando ausentes, tocam-se

reciprocamente, em uma renovada alegria de dosar

as volúpias !

   

 

 

     ESTA PERFUMARIA

 

Bem cedo

a quietude

peixes no aquário

da névoa

brotam ampulhetas

sóis gelados

aquecem velhas

cadeiras verdes

 

– Toda essa conversa sobre horizontes

deixou o vagabundo santo

enjoado –

 

civilizações

de terracota

punir grilos negros

tal o jade

 

Ora, o campo aberto

a levedura fecunda

o vento sempre forte

o vento sempre forte

o vento sempre forte

                             faz as roupas

                             deslizarem bêbedas

                                                           no dorso

 

Ainda felinos caminham

sobre almofadas

as folhas farfalham

mesmo o eclipse

se derrama

                são teus irmãos

 

Boa noite !

Boa noite !

Já soaram os relógios do silêncio

a plantação está dourada

o milho é bom então !

Boa noite !

 

                         

         

     LO CLAVICEMBALO ROSSO

 

I – ARROSSAMENTO – MODUS RECTUS

 

Lembrança :

 

          a uva

          recolhida

          ao frio

 

bebes comigo ?

                  não t’enterneças

                  é

                  água

 

bailar por

torres

      de quadris

 

  bebes comigo ?

          da mais pura

                      acqua

                          ?

     

   escuro

                        em pétalas

 

                            

 

neste momento,

                            a vidraça

                            transmite-me

o medo

 

   vermiglio

                       

                        o medo confuso

                                do

                                dia

                                 ressurgir  

 


 

II – FRAGRANZA

 

Percorrerás algum dia a gama

imensa de cidades do mundo

e sem embargo não poderás

esquecer o rosto de teus

cães mais leais

 

D’onde deduz-se que o oceano é mais que uma

cruz no deserto do universo; cravejei

este ventre com soluções para

os mais variados problemas

                 – entre eles está a

                    paixão pela posse matinal

 

Por vezes, a substância, adiantada,

t’entorpece as narinas – é um rico

perfume de imperatrizes belicosas

e más

Ainda assim, consomes o

suficiente da sombra

 

a luz, muito longínqua

apenas responde

mordendo a língua entre lábios gostosos  

 


 

III – BOLERO INFANTE – MODUS INVERSUS

 

Ouça,

navegar.

este é o selo da boca, o desejo de gozar o dia

 

Anda, destrói com força minhas lágrimas !

 

as mãos pequenas dos pobres do

mundo; elas não podem te dar um

pão, quanto mais a paz eterna

 

Anda, destrói com força minhas lágrimas.

 

tudo escurece e é bom e morno

o céu. por um segundo acreditamos

nos padres. uma pomba não seria mais tonta !

                 

  Anda, destrói com força minhas lágrimas,

 

Voltarei para teus acalantos

             entre trevas, troncos e tribos

            só o ar refrigera

 

             –Anda, destrói com força minhas lágrimas  

 

 

 

    MOMENTO RUDE

 

O suave

 

O pérfido

                                           

                            o perdido

 

viciam nossas viagens

 

Havia uma estrada e um rei cego

plantando agriões azuis, havia uma

pequenina donzela e suas pequeninas botas

E como os cogumelos cresciam alegres,

parvos ! Tristíssimos patos ainda

sopravam ( inconfessáveis ! ) trombetas.

Um país de pipoca e

roda-gigante. E tudo que sorvia

era vida

 

Por desejar o dia, as rosas exalam perfumes

 

luzes vermelhas ofendem

as frestas das vidraças

             deslizam lentas como

             leopardos ociosos

   

 

     O MURO CAIADO;

 

Havia um muro

caiado onde todos

os garotos sabiam poder

esconder as frutas verdes, roubadas

 

Depois, o governo da província

decidiu apelidá-lo «el paredón»

e nenhum garoto pôde usá-lo

como esconderijo, o triste

muro cravado

       de balas

 

No entanto, em todas as décadas

de terror nem mesmo uma gota

vermelha manchou aquela cal

 

nem mesmo uma gota pequena;

 

 

 

 

      FAVOLA

 

              

                               falaram-lhe: 

                         Títiro, recolhe tua

                               doce fauna

      oh                      tua galhada de espinhos

  por favor,              – as amoras, que são

  recolha-os!              os mamilos da esposa

                                   – Títiro, recolha tua

                                   flauta  

Tityre, tu patulae recubans sub tegmine fagi

siluestrem tenui musam meditaris auena;

nos patriae finis et dulcia linquimus arua;

nos patriam fugimus; tu, Tityre, lentus in umbra,

formosam resonare doces Amaryllida siluas.

 

 A melancolia do arpejo

                                         solitário

 

                                                                 a chama azul

                                                                 sustenta

                                                                 relâmpagos

                                          cabelos espalhados no caos

 

à noite, sonhamos 

   

 

 

 

Tentei escrever o PARAÍSO

 

Não se mova

       Deixe falar o vento

            esse é o paraíso.

 

Deixe os Deuses perdoarem

                o que eu fiz

Deixe aqueles que eu amo tentarem perdoar

                o que eu fiz

 

 

                  «Os Canto», esboço do Canto CXX

          Ezra Pound, na tradução de José Lino Grünewald

 

                   

 

 

 

 

Esta

obra foi

impresa em

febreiro de 2001

pela Grafica e Edito-

ra Ciudade de Barcena.

Dados gráficos: Proyeto vi-

sual e revisão, Andityas Soa-

res de Moura; Tiragem, 300 exem-

plares; número de páginas, 52; capa,

supremo 250 grs.; miolo, polen soft, 85 grs.

formato, 15,5 / 22,5 cm

 


Esta edición electrónica de Lentus in

umbra ha sido realizada por Portal 

de poesía y depositada en Inter-

net a los doce días anda-

dos del mes de marzo

del años dos

mil uno