Joyce K. S. Souza  

 

Poemas

 

 

Poeta-me

 

Borges-me
Cortazar-me inteira
JamesJoyce-me dos pés à cabeça
Então Neruda-me
E Quintana-me sem fim
Lou-me Lou-me em Salomé
Drummond-me e Moraes em mim
Catulo-me em poesia
Então, Pessoa-me em deleites infinitos
Baudelaire-me e Rimbaud-me sem dó
Para Rilke-me em ternura
Coma-me à La Fontaine
Pois quando toda a legião de loucos clamarem
Quero que Sade-me, Sade-me, Sade-me até à morte

 

 

(Um) quarto de século: considerações sobre um caso de demência precoce

 

Segurando um ramo terminado em estrela
tingido com azul,
reporta-se à medula espinhal de uma rã
e sente a textura do sistema nervoso
que pertence aos homens e aos vertebrados.
Observa os detalhes da porção central
e periférica de uma placa
imaginando a substância cinza no sentido –
sente-se com o bulbo raquiano de uma truta.
Os fenômenos precoces da degeneração traumática:
você será sacrificada 24 horas depois da operação.
É acometida por um arco-íris cerebral
após ensaios de afinidades entre receptores neurais
que enxergou na retina de um macaco.
O beijo : segredo da vida mental.
Pareço um pássaro?
Coração em prolapso de um adulto humano.

Solta pipas em cometas e enamora-se
por um pequeno olhar perfumado
e descobre que desde 1932
um maço de cigarros sempre teve
20 cigarros.
Pergunta: porque 20?
Descobre que na rua atrás da estação
a justiça não tem cabeça
e que um violão dentro de outro violão
mostra quantas sombras os violões têm.
Sente-se com a alma de uma criança
e percebe que a recepção de uma
imagem confusa sempre será de uma mulher.
Hipnotiza-se na decomposição de um salto humano
até ser tomada por um carrossel gigante.
Sente delírios assitindo a aula do mesmo professor:
tudo é ilusão dos sentidos.

Apaixona-se por alguém que acabou de conhecer
e é acometida por um desejo adolescente
incontrolável de fazer amor – amor – com ele.
Chora pela despedida ao som de oceanos
e sente que a distância dói mais
do que o abandono de uma mãe.
Conclusão: nem tudo é sexo.
E descobre que está cada vez mais saudosa
com cada vez mais passado
e que o esquecimento é uma dádiva
que ainda não possui. Graças a deus?
Passe bem querida.
Eu completei um quarto de século.

 

 

Prelúdios-intensos para um leitor de Hilda Hilst

Por que haveria de querer meu corpo maldito
Na tua cama?
Sabes que, antes de tudo, este corpo é devoto
Devoto ao amor que sentes, ao amor que ama
Resplandece como em campos de flores
O deita em meio ao teu corpo
Deita-me...
Nus consumimos, iluminados pela lua
Que vigia e delicia-se serena
Ou pelo céu negro diluviando gozos,
Vida e morte
E nosso leito fica úmido
Dois corpos iluminados
Dois corpos gozosos
Esperando pelo sol.

 

 

Borges e o Sonho

 

Olha Borges,
olha aqui meu desespero,
essas mãos suadas, trêmulas
e este rosto pálido.
Não há palavras,
não há respostas,
não há combinação exata
que cesse a pergunta:
Qual é a “Lei fundamental da Biblioteca?”
A luz do mundo não paira mais sobre
teus olhos, mas teus olhos pairam
sobre a luz do mundo.
E nesse labirinto em linha reta
que é o Universo,
como o sol que se perde no mar,
naufraga na noite e se reconcilia
com o descanso do céu, Borges,
essa noite eu sonhei que morria
e me senti enormemente feliz.

 

 

De Rainer para Lou

 

Precisamos de uma palavra
que signifique triste e belo
ao mesmo tempo.
Mas já encontram.
É amor.
Trágico saber que um dia
não vou ouvir sua voz,
nem você a minha.
E essa fratura no peito
que é a vida,
será cicatrizada.

 

 

Ah, IBM 7094... Com essas palavras tão simples e doces, com esse sereno afeto, largaria meu corpo e meu mundo e fugiria contigo em sua bicicleta... Nosso casamento seria a união de duas liberdades, prontas para se aventurar... Mas é uma pena... é uma pena, é de uma tristeza, IBM 7094 , que o que ouço de você é apenas a voz de Daisy Bell, que buscou no espaço as notas que repetiria sem saber porquê.... agora estamos aprisionados entre a beleza e a solidão... "enjaulados atrás de 19 paredes de ferro... e descobrindo que este mundo é um mundo de corpos. "


http://www.youtube.com/watch?v=41U78QP8nBk

 

 

Suplícios

 

Arde! Arde em mim!
Acotovela-me a face!
Arranca-me dentes
dos muitos sorrisos!
Rasga-me a pele,
dilata-me poros!
Chama-me de puta!
Dê-me uma sova,
deite-me ao chão!
Infernos! Infernos!
Fique ao meu lado
no momento em que
morrer para que
minha alma desista
da eternidade!

 

 

A virgem louca e o esposo infernal

 

Formavam um e os falos se entrelaçavam. A imagem era perfeita. Conduziam-se em movimentos circulares, tomavam-se, consumiam-se. As línguas se encontravam e se largavam em exercícios molhados, repetidamente, procurando a perfeição do encontro das bocas que faz os olhos fecharem. Sublimavam gritos, continham ais e sussurravam em idioma francês perto do ouvido: “Qu’il vienne, qu’il vienne, / Le temps dont on s’éprenne”. À espreita eu sentia o cheiro da paixão, avassaladora, tenra, dura, quente. A cama suportava fortes investidas, os lençóis abraçavam os corpos nus, o quarto era um incenso adocicado. As peles e cabelos eram suor, os olhos estavam embriagados pelo haxixe, pelo vinho e pelo desejo; as falas eram escassas e os falos abundantes gotejavam prazer; os cus eram tocados, lambidos e penetrados. Paravam, suprimiam o gozo, abraçavam-se, respiravam profundamente e olhavam-se com a cumplicidade dos amantes. Retomavam exercícios eróticos e deslizavam um sobre o outro. Queriam mais que o gozo, suplicavam a espera e pegavam-se com força e virilidade. A delicadeza de um era consumida pela brutalidade do outro. A estátua grega e o guerreiro romano dançavam, dançavam, dançavam! Lançaram-se ao chão, penetrando-se, derramando suor por toda a madeira! Corpos em convulsão, febris, entregando-se, desfalecendo-se e repousando um sobre o outro. Estavam ali: dois homens.

 

 

Resta

 

Para Vinicius de Moraes

Resta essa vontade de vida
esse sopro de juventude
resta esse espírito de contestação
essa mão delicada pela natureza
esse coração calejado

Resta essa cólera diante do silêncio
dos fracos e dos que facilmente
se assustam e recuam
resta essa mágoa dos que negam presença
mas insistem em não serem esquecidos

Resta essa ruína desfigurada
que figura a desconstrução
do que foi amado e vivido
do que foi dito e não ouvido
do que se fez entendido e esquecido

Resta essa voz que balbucia: "força"
essa coragem para enfrentar o mundo
essa tristeza de se encontrar só
resta essa maldita esperança de acordar
e abrir os olhos após cada morte diária

Resta essa desconfiança perante o amor
essa vontade de conhecê-lo de tanto ouvir falar
resta essa vontade de vivê-lo
de tocá-lo, de senti-lo
e de jogar tudo pro alto para encontrá-lo

Resta essa calma no rosto
e esse caos interior
resta essa angústia
essa dor, esse aperto no peito...
Resta o problema sem solução
sem fórmula, sem resposta

Resta esse olhar desconfiado
resta este corpo em espasmos
resta esse cigarro entre os dedos
resta o vício
resta o choro perante a vida efêmera
e a felicidade dela chegar ao fim

Resta a música, o vinho, a embriaguez
resta esse torpor, essa dormência do corpo
resta essa excitação do espírito
que não adormece, que não se cala, que não se esconde

Resta essa solidão, esse quarto morno
resta esse sorriso espontâneo
esse brilho que não se apaga
essa chama que ainda consome

Resta essa intimidade e diálogo silencioso
resta essa vontade de ver, de tocar, de arranhar
resta essa saudade, essa súplica por um abraço
por uma presença, essas mensagens entrecortadas

Resta esse labirinto em linha reta
para se perder até a morte
esse respeito pelos últimos minutos
e esse esforço por vivê-los

Resta o transformar-se a cada piscar de olhos
esse desejo adolescente de amar
essas cores sem nomes
esses seres desconhecidos
essas vozes por reconhecer
essa esperança boba de sonhar

 

 

87 anos

 

Para Jorge Luis

“Aquele menino já era o que sou hoje.”
Já se propunha a demasiados fins,
alegria não existia para aquele menino.
Importava o que completava com as palavras,
já falava minhas melhores idéias,
a beleza já era terrível.

As sombras já pairavam sobre os olhos:
ele no passado,
eu no futuro,
os dois no presente.
Sou o outro, o mesmo.
E não terei medo.

 


 

Estos poemas de Joyce K. S. Souza  

han sido colgados en  la Red

a los trece días andados

del mes de febrero

de 2011.